No ano 2000, com a vinda do game Quake III Arena, tornou-se obrigatório para todo gamer que se desse o respeito possuir uma placa aceleradora de video, conhecida na época como “placa 3D”. Estas placas de video multiplicavam a resolução dos jogos, adicionavam efeitos de iluminação dentre outros recursos. Foi nessa era que veio um dos jogos que mais marcou minha infância apesar de ser um jogo relativamente desconhecido: Slave Zero.

Em Slave Zero, o jogador toma o controle de um robô de 60 pés de altura cujo objetivo é derrotar um ditador conhecido como Sovkhan, o qual possui um exército teoricamente imbatível. O jogo começa quando a aliança rebelde consegue roubar uma unidade Slave, o ultimato em máquinas de combate do exército de Sovkhan, e funde um soldado especialmente treinado na unidade, usando-a para completar diversos objetivos para os rebeldes, incluindo capturar embriões de outros slaves que permitiriam aos rebeldes derrotar Sovkhan.
Slave Zero é, sem dúvidas, um jogo único. Enquanto que alguns outros jogos te deixam controlar robôs gigantes vez ou outra, geralmente são simuladores, como MechWarrior ou Heavy Gear [PC], ou são toscos como Amok [PC, Saturn], e mesmo estes te dão um robô com 2 ou 3 andares de altura. Em Slave Zero, seu robô é do tamanho de um maldito edifício de vinte andares. A cada passo que se dá no jogo, a tela treme com o impacto. Quando se para próximo a um prédio, as janelas estão para o Slave Zero como um moedas estão para uma pessoa de 1,80 de altura. As explosões são massivas. Devido ao tamanho do jogador, não se pode transitar em áreas mais fechadas da cidade, e mesmo as áreas abertas parecem pouco espaço para se mover em combate. Porém, isto contribui ainda mais para a ilusão de ser um gigante correndo pela cidade; a cidade não é uma arena para o combate, mas sim uma cidade, com seus prédios, praças, viadutos.

E tudo explode. É LINDO quando se dispara um míssil no inimigo, ele esquiva para o lado e a construção atingida desmorona em chamas e escombros. Infelizmente, isto torna-se um pouco repetitivo com o tempo, devido à restritiva quantia de armas que o jogador pode carregar. E este é o primeiro de uma pequena série de defeitos que impediram Slave Zero de ser um grande sucesso comercial na época. O jogo dá três armas ao jogador: uma metralhadora automática, um canhão de plasma e um lança-mísseis montado no ombro do Slave Zero. Entretanto, conforme o jogo progride, as armas vão recebendo upgrades: a metralhadora fica mais potente e eventualmente torna-se um lança-mísseis, o canhão de plasma idem, vai ficando mais e mais forte e termina disparando uma bola de plasma imensa, e o lança-mísseis… Bem, este é problemático. No começo do jogo, ele dispara um míssil comum, porém com o primeiro upgrade, o míssil torna-se guiado por calor. O problema é que, quando se pega o próximo upgrade para o lança-mísseis, ele além de voltar a ser um míssil comum, abre-se em 6 após certa distância. Isto pode parecer bom a princípio, mas resulta em desastre, pois quando os inimigos não desviam completamente do projétil, o mesmo abre em 6 e os 6 passam ao redor do inimigo sem ameaçá-lo por um segundo. No upgrade seguinte, curiosamente, ele fica igual ao segundo estágio de evolução da arma, tele-guiado apenas.
Outro problema do jogo é a repetitividade de mapas. Enquanto que a cidade realmente convence o jogador de ser uma cidade, tudo é sempre igual. Sempre as mesmas casas, os mesmos prédios sob as mesmas luzes verde e laranja. Quando se sai da cidade, se vai para o esgoto, que por algum motivo possui corredores suficientemente grandes para um robô colossal transitar tal qual um gordo no mercado. Há espaço de sobra tanto para o jogador como para os robôs inimigos que ficam inclusive voando pelo cenário.

Falando neles, a inteligência artificial do jogo merece aplausos. Os robôs voam em locais difíceis de mirar, frequentemente indo para trás do jogador. Os inimigos do começo do jogo são absurdamente estúpidos, mal se movimentam, mas ainda assim, conseguem esquivar mísseis e mesmo armar pequenas emboscadas, cercando o jogador e dificultando sua vida. Algumas mecânicas do jogo costumam dificultar também em missões de escolta.
Infelizmente, no Dreamcast o desafio é ainda maior. O jogo oferece quatro ou cinco esquemas para se controlar o jogo, cada um mais complicado e difícil que o outro. O que eu achei mais apropriado foi o padrão: avança no Y, recua no A, desliza para os lados com X e B; mira usando o analógico e atira nos gatilhos. Não se tem a opção de inverter a mira, e a mesma vem invertida por padrão no eixo Y. Isto tornou o jogo uma tortura para mim, pessoalmente, e simplesmente não faz sentido que não se possa inverter a mira, visto que é possível se fazer tal ajuste na versão de PC.
Nesta versão, há outros problemas também. O primeiro deles é a taxa de quadros por segundo. Enquanto que o jogo roda estável, a taxa de quadros não o acompanha, tornando batalhas contra chefes, principalmente, um tanto mais difíceis do que já são por padrão. O pior é que o jogo perde boa parte de sua identidade no Dreamcast. Na versão de PC, a cidade possui pessoas passeando a pé; pessoas estas que voam quando o jogador bate com o pé no chão ou dispara mísseis nelas, acidentalmente, claro. No Dreamcast, as vias públicas do jogo são desertas. Nota-se que são estradas, mas mal se vê carros; no PC, monta-se um engarrafamento sempre que seu Slave é estacionado sobre a pista.

Com controles ajustáveis, gráficos superiores e até mesmo efeitos de decoração da cidade, como telões e placas de neon que simplesmente não existem na versão de Dreamcast, a versão PC é a ideal. Infelizmente, a mesma foi feita específicamente para o Windows Millenium Edition. Provavelmente foi o único software feito para o Windows Milenium Edition. Nada deveria ser exclusivo do Windows Millenium Edition, convenhamos. Bem, por sorte, há uma comunidade relativamente grande dedicada ao jogo e, principalmente, a rodá-lo em sistemas operacionais com dignidade, como o Windows XP e sucessores. E anteriores ao Windows Millenium Edition.
O enredo do jogo é relativamente fraco, mas é irrelevante. O blablabla de sempre envolvendo rebeldes e ditadores malignos é perfeitamente ignorável; o grande destaque do jogo reside em controlar um robô gigante numa cidade maior ainda, participar de combates colossais com armas grandes e explosões grandes e em matar civis acidentalmente.
Dreamcast: nota 6/10
PC: nota 8/10
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